Erro de comunicação (sim, de novo)

Bem-vindos de volta ao What’s Up Docs?!

Como vocês podem ter lido neste anúncio, uma das razões pela qual eu deixei de ser um Coordenador do Programa foi porque eu não conseguia achar tempo para escrever sobre questões de torneios e políticas no What’s Up Docs. Levou algum tempo para Restaurar o Equilíbrio na minha vida, mas, bem, o fato de eu estar escrevendo isso enquanto faço uma pausa na desmontagem dos meus móveis antes de me mudar permanentemente para Paris amanhã parece ser um bom sinal.

Então, o que de excitante aconteceu nos meus GPs nos últimos meses? Erro de Comunicação!

 

Nomes muito semelhantes

Eu tenho dito muito sobre esse tópico em diversas vezes, mas essa situação foi umas das mais complicadas que já tive que lidar.

 

A Situação

AP conjura Caminho para o Exílio tendo Vizir dos Remédios como alvo, sem apontar o alvo fisicamente. NAP responde sacrificando Vidente Visceral para vidência. AP passa o turno, NAP desvira e compra um card.

Nesse ponto, AP pergunta o porquê do Vizir dos Remédios de NAP ainda estar no campo de batalha. Eles chamam um juiz.

A Investigação

Eu perguntei a NAP porque ele acreditava que AP escolheu Vidente Visceral como alvo. Ele me disse que AP não demonstrou fisicamente o alvo e que ele ouviu “Seer” (do inglês de Vidente Visceral, Viscera Seer, o que não é muito diferente da segunda sílaba da versão em inglês do Vizir dos Remédios, Vizier of Remedies).

Eu fiquei confuso com a declaração pois sinto que normalmente os jogadores escolhem o Vizir dos Remédios como alvo e perguntei porque NAP achava que essa jogada fazia algum sentido. NAP disse que ele joga com apenas 1 Vidente Visceral no seu grimório e que, embora matar o Vizir iria de fato prevenir ele de fazer mana infinita (ele também tinha um Druida Devotado no campo de batalha que ele acabou de conjurar), ele não tem nada demais para fazer com toda essa mana e já tinha 7 fontes de mana, o que significa que ele não precisa de mais, ele precisa ter acesso à Vidência.

Eu argumentei que ele usa algumas cópias de Testemunha Eterna, no que ele concorda, mas também aponta que ele tinha mais cópias de Vizir dos Remédios do que de Testemunha Eterna restantes em seu deck, assim a melhor escolha de seu oponente seria fazer ele sacrificar seu Vidente Visceral.

Embora a maior parte do raciocínio demonstrado aqui seja muito contextual e não acessível a AP, me parece uma boa explicação do porquê NAP poderia pensar que AP escolheu Vidente Visceral como alvo.

AP confirmou que ele apenas anunciou verbalmente o alvo. Ele indicou também que, contra esse deck, ele sabe que sempre deve dar alvo no Vizir. Eu perguntei como ele não percebeu que o Vizir continuava ali até NAP ter desvirado e comprado um card. Ele disse que não prestou muita atenção.

No geral, NAP exibe um entendimento do estado do jogo bem maior e eu poderia confirmar seus argumentos com o conteúdo de seu deck. Ainda, o raciocínio estratégico faz sentido. Pode não ser o melhor (não posso validar isso de forma segura) mas não consigo achar uma falha significante nela, o que me fez concluir que NAP não trapaceou.

 

A decisão

Já que eu exclui Trapaça, eu precisava saber como continuar aquele jogo. Não há uma correção parcial nessa situação nos documentos como suporte, e retroceder seria muito complicado pois NAP tinha 4 ou 5 cards na mão e uma fetchland no campo de batalha. Se eu tivesse feito um retrocesso, eu teria permitido que NAP fizesse quase uma Tempestade Cerebral.

Apesar dessas considerações, eu tentei avaliar quem era o maior responsável por esta situação:

  • NAP não realizou as instruções de AP corretamente
  • AP comunicou verbalmente, mas com um nome de card incompleto
  • AP não apontou o alvo fisicamente
  • AP não percebeu nada até que NAP fez sucessivamente:
    • Vidência
    • Desvirou suas permanentes
    • Comprou um card

Embora eu concorde que NAP não realizou a ação esperada, eu sinto que AP não fez qualquer esforço para checar o que estava acontecendo naquela partida. Considerando que eu determinei que NAP não tinha cometido Trapaça, então eu acredito que AP tinha mais culpa no atual estado do jogo e escolhi deixar a situação dessa forma: Por não apontar até ser tarde demais e considerando aqui uma legítima falta de clareza, AP implicitamente concordou que Vidente Visceral era o seu alvo. Ele em nenhum momento fez isso explicitamente, mas falhou completamente em não parecer que tinha feito.

 

Reconsiderações

Sem reconsiderações, na verdade. Estou confiante em minha decisão. Sobre outras circunstâncias um pouco diferentes, eu poderia ter feito um retrocesso, mesmo que a presença de uma fetchland me fizesse suscetível a enfraquecer essa idéia (mas isso não significa que é impossível).

 

Começando o turno (muito) cedo

Outra situação de erro de comunicação, no qual essa é muito interessante pois, logo de começo, eu escolhi o retrocesso, o que é algo que eu geralmente recomendo evitar.

 

A Situação

Durante a sua manutenção, AP resolve a vidência de Bestiário do Vivideiro e diz alguma coisa. NAP ativa a habilidade de Ladrão de Éter Escudado, compra um card e depois pega outro do topo de seu grimório. Nesse momento, AP para NAP, perguntando a NAP porque ele está comprando outro card. NAP indica que aquela é a compra de seu turno e ambos chamam o juiz.

 

A Investigação

Eu dou uma boa olhada na mesa primeiro. O jogo está estagnado e eu percebo que AP tem 9 terrenos e 7 cards na mão. Isso me fez pensar o porquê de NAP acreditar que AP poderia ter passado o turno sem conjurar nada.

Eu decidi esclarecer isso com NAP primeiro. Ele disse que ouviu “Vai (Go)” e que isso não era estranho baseado com que aconteceu nos outros turnos: às vezes ele jogava algumas criaturas, outras ele passava confiando em suas mágicas. NAP esperava que AP estivesse segurando muitas mágicas instantâneas. Ambos os jogadores não tinham atacado tanto, e o registro de vida confirmava isso.

AP reportou que ele disse “Compra (Draw)”, o que, baseado no estado do jogo e o fato dele apenas ter resolvido uma habilidade desencadeada na sua manutenção, parecia razoável. Eu perguntei se ele não desconfiou que tinha algo errado quando o Ladrão de Éter Escudado foi ativado na sua manutenção já que esse card era um dos motivos dele não estar atacando tanto durante esse jogo. Eu não consigo me lembrar da resposta exata mas, não foi super convincente, como se AP estivesse feliz por NAP ter feito uma jogada ruim.

 

A decisão

Eu acredito ser razoável para AP perguntar se ele pode comprar depois de sua vidência. Estou menos confiante sobre a legitimidade de AP não confirmar se NAP ativou o Ladrão de Éter Escudado na sua manutenção, embora certamente não seja obrigatório chamar atenção a isso, uma vez que não é uma infração, mas isso deveria alertá-lo e na maioria das vezes levar a perguntas como “na minha manutenção?”

Eu sinto também que faz sentido para NAP acreditar que AP disse “Vai” baseado na descrição dos turnos anteriores de ambos os jogadores. Fiquei um pouco intrigado pelo fato de AP não ter comprado seu card do turno, mas NAP disse que não prestou atenção e apenas ouviu “Vai”.

Eu não estava 100% convencido de que qualquer um dos jogadores tinha cometido Trapaça e estava em dúvida de qual dos jogadores era mais responsável por esse erro. Ainda, talvez AP desejasse empurrar o erro para tentar conseguir uma penalidade mais severa para seu oponente, ele poderia ter esperado pela segunda compra, na esperança de ser punido um Erro de Card Oculto (ou uma Perda de Jogo, se ele estivesse desatualizado). O fato dele chamar atenção antes do segundo card ser comprado não se alinha com esse pensamento.

Por fim, eu retrocedi ao ponto do erro, o que significa até a Etapa de Manutenção de AP. Eu cancelei a ativação do Ladrão de Éter Escudado, fazendo NAP colocar um card aleatório de volta no topo de seu grimório e pedi que AP continuasse seu turno.

 

Reconsiderações

Essa é uma das situações onde nenhum dos jogadores realmente cometeu ou é responsável pelo erro, diferente de outras situações que eu já apresentei. Embora eu tenha dito múltiplas vezes que retroceder é equivalente quase a favorecer um jogador, nessa situação isso não é verdade. Claro que NAP fez uma pequena Tempestade Cerebral, mas, de forma justa, isso foi diluído em uma mão já cheia então não é um grande problema.

Observe que nesse caso, NAP foi impedido de comprar o segundo card, mas mesmo se o tivesse feito, eu continuaria não julgando como um Erro de Card Oculto. NAP realmente acreditava estar comprando um card na sua Etapa de Compra, no qual seria uma compra legítima. Se ele não acreditasse nisso de forma sincera, então a penalidade apropriada não seria a indicada para Erro de Card Oculto, mas sim a de Condutas Antidesportivas – Trapaça.

 

Kevin Desprez.